Sem Limites: fantasia sobre a droga da inteligência

Cena do filme Sem Limites
Sem limites: filme dirigido por Neil Burger

UMA BOA HISTÓRIA, CONTADA COM ESTILO

A ideia de ingerir uma poção mágica e ganhar poderes extraordinários, brota na mente humana desde tempos imemoriais, talvez plantada por curandeiros em busca de alívio para males mundanos. Magos, bruxas, alquimistas, feiticeiros e druidas elevaram o nível das promessas e inventaram fórmulas mirabolantes, que terminaram nas páginas da literatura. De Ulisses a Dr. Jekyll, muitos personagens experimentaram drogas transformadoras e pagaram um preço alto para se livrar dos seus efeitos indesejáveis. Com o cientificismo, a crença de que é possível misturar as substâncias certas, nas proporções certas, para obter qualquer efeito que se possa imaginar, tornou-se uma certeza. Daí para o mercado mundial das drogas, foi um pulo.
        O homem moderno consome drogas de todos os tipos. Complexos vitamínicos, aspirina, comprimidos para dormir, pastilhas para deixar de fumar... As drogas ilícitas também preenchem uma lista imensa e estão disponíveis com igual facilidade, para quem se dispuser a sair em busca. O mecanismo de funcionamento é quase sempre o mesmo: a substância é metabolizada pelo fígado, cai na corrente sanguínea e segue para o endereço de entrega. As drogas psicotrópicas, com efeito calmante ou estimulante, vão para o sistema nervoso central e... clic!
        Drogas já não são tabu. Vêm certificadas pela Anvisa, receitadas por não diplomados, compradas em supermercados... As ilícitas até ganharam o triste complemento de... recreativas, ainda que causem efeitos físicos e psíquicos comprovadamente prejudiciais. Há quem as enxergue como um poderoso instrumento de controle social, capaz de domesticar os cidadãos. Promovem o escapismo, a alienação e aquietam os ímpetos contestadores.
        O cientificismo, porém, insiste em perseguir o sonho da droga perfeita, capaz de nos livrar de todos os nossos limites. E se a medicina criar uma que nos torne mais atentos, espertos, concentrados e inteligentes! Pensar mais rápido, lembrar de cada página que já leu na vida, aprender qualquer matéria nova em segundos... Quem não sonha em ter o superpoder da inteligência? Esse é o tema fascinante desfiado em Sem Limites, filme de 2011 dirigido por Neil Burger.
        Eis aqui um filme de ação acima da média e seu trunfo está no roteiro escrito pela experiente Leslie Dixon. Ela criou um script repleto de oportunidades para que o espectador imagine o que faria no lugar do protagonista. As armações que ele trama e as soluções que descobre para escapar das enrascadas em que se mete, ganham credibilidade na direção segura de Neil Burger. O diretor é dono de um estilo próprio, que também pode ser conferido em outros filmes, como O Ilusionista e Viajantes – Instinto e Desejo.
        Sem Limites conta a história de Eddie Morra (Bradley Cooper), um pretenso escritor, deprimido e desleixado com a vida, que topa com uma poderosa droga capaz de amplificar sua capacidade intelectual. De comprimido em comprimido, ele se torna um gênio em qualquer assunto que desperte seu interesse. Sua ambição desmedida o leva a tentar enriquecer o mais rapidamente possível e isso só é possível em um lugar: Wall Street! Consegue um emprego com o megainvestidor Carl Van Loon (Robert De Niro) e vê sua conta bancária engordar, enquanto seu relacionamento com a bela Lindy (Abbie Cornish) segue ladeira abaixo. Para complicar, nosso herói se torna também um dependente químico e refém de traficantes e agiotas. Metido em encrencas potencialmente mortais, terá que lidar com sua própria ganância e com a dos poderosos que passam a persegui-lo.
        O roteiro de Leslie Dixon é uma adaptação do romance The Dark Fields, escrito por Alan Glynn. Foi o primeiro livro desse autor irlandês, posteriormente republicado com o título de Limitless, em razão do estrondoso sucesso comercial do filme. Ao transpor a história para as telas, a roteirista seguiu uma narrativa simples e linear, mas repleta de charme. Trabalhou em estreita colaboração com Alan Glynn, mas precisou incrementar o enredo. Para manter o ritmo ágil que os espectadores exigem – os leitores são mais detalhistas e tendem a se colocar no comando do ritmo – a roteirista criou vários pontos de virada e meteu o personagem em mais enrascadas.
        A linguagem adotada por Neil Burger está ancorada num elaborado discurso visual, repleto de truques gráficos usados com bom gosto e inteligência. Quando o personagem está sob efeito do milagre que lhe remove os limites, as cores se tornam vivas e feéricas, enquanto os cenários, figurinos e objetos de cena se tornam mais limpos e sofisticados. Aos poucos o espectador percebe que o sujeito parvo, com visual relaxado, ganha musculatura intelectual, ousadia, desenvoltura e arrogância.
        Sem Limites traz um tipo da fantasia à qual nos entregamos com gosto. Seu sucesso rendeu uma série de TV em 2015, produzida pelo próprio Bradley Cooper, mas alcançou o público com um certo desgaste. Apesar de preservar a mesma linguagem visual utilizada pelo diretor Neil Burger no cinema, perdeu em impacto e originalidade.

Resenha crítica do filme Sem Limites

Ano de produção: 2011
Direção: Neil Burger
Roteiro: Leslie Dixon
Elenco: 
Bradley Cooper, Abbie Cornish, Robert De Niro, Anna Friel, Johnny Whitworth, Richard Bekins, Robert John Burke, Tomas Arana, T.V. Carpio, Patricia Kalember, Andrew Howard e Ned Eisenberg

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