Cidade de Deus: dramatizando um compilado de histórias verdadeiras

Cidade de Deus: filme dirigido por Fernando Meirelles
UMA BOA HISTÓRIA, CONTADA POR UM BOM NARRADOR
– O que foi que ele disse? – perguntava um mais surdinho.
– Sei lá... Acho que tá precisando ir ao banheiro!
– Shhhhhhhhh – chiavam todos da plateia que tentavam prestar atenção.
Havia entre os cinéfilos um debate acalorado sobre porquê era difícil entender as linhas de diálogo recitadas pelos atores em filmes brasileiros. Muitos juravam que os equipamentos de som de péssima qualidade instalados nas salas de cinema eram os grandes vilões. Outros achavam que o defeito era de origem; vinha gravado nas películas entregues aos exibidores. Alguns diziam que o problema não era exclusivo do cinema tupiniquim, pois muitos filmes estrangeiros também tinham som ruim, mas isso passava despercebido pelos espectadores, porque contavam com a comodidade das legendadas. O fato é que havia diferenças entre o que escutávamos na TV e o que era dito nos cinemas.
Talvez isso tudo fosse apenas desculpa. Talvez o público brasileiro evitasse as produções domésticas por ressalvas ao conteúdo que ofereciam: sexo, violência, humor raso, inclinações ideológicas... Já naquela época havia a noção de que os filmes brasileiros enalteciam os bandidos e os maus-caracteres. O tempo passou e os filmes nacionais ganharam qualidade, mas não o coração do espectador – raras exceções nos encheram de orgulho e lotaram as salas de cinema. Mas lembro que em 2002, quando Ludy e eu fomos ao cinema para prestigiar Cidade de Deus, filme de Fernando Meirelles, ainda temíamos nos decepcionar.
Não foi o que aconteceu! Quando chegaram os créditos finais, mal conseguia conter a empolgação. Voltei ao cinema outra vez, para examinar a produção em detalhes. Apelei para a locadora, comprei o DVD, visitei de novo ao me deparar com o título nos serviços de streaming... Tornei-me íntimo desse filme e o coloquei na minha lista de favoritos. Agora, chegou o momento de escrever sobre ele!
Antes de virar filme, Cidade de Deus nasceu em livro. Paulo Lins o escreveu na condição de ex-morador daquela favela, localizada na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro e que lhe emprestou o nome para usar como título. Trata-se de uma obra de valor literário, que narra centenas de histórias reais e nos apresenta a um incontável número de personagens.
Na adaptação para as telas, a trama se detém nas décadas de 1960 e 1970. Narra o nascimento da favela, junto com o crime organizado movido pelo narcotráfico. Fernando Meirelles escolheu algumas das histórias narradas no livro e incumbiu o roteirista Bráulio Mantovani de costurar um roteiro viável. Acontece que ter boas histórias para contar, sobre fatos surpreendentes que aconteceram com personagens marcantes, não é garantia de sucesso. A maneira de contá-las é o que importa. Depois de incontáveis tratamentos, o roteirista conseguiu estruturar uma narrativa adequada para o cinema.
O pulo do gato de Mantovani foi saber escolher o narrador certo para suas histórias. Em meio a tanta bandidagem e tanta moral torta, Buscapé é o único a quem estenderíamos a mão, para nos guiar por todo o filme. Em Cidade de Deus, o personagem ganhou voz. É íntegro, mas vulnerável. Gosta de fotografia, mas tem alma de narrador. É por ele que torcemos desde a primeira cena, quando se envolve numa situação potencialmente mortal. E continuamos assim até o final, quando já estamos arrebatados por uma poderosa força dramática.
Cidade de Deus virou um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos! Fernando Meirelles esculpiu um filme memorável, escancarado sem ser graficamente sanguinário. É salpicado aqui e ali com pitadas de humor, enquanto alterna ação, drama e uma franqueza quase documental. A linguagem usada pelo diretor teve forte influência estética em toda a nossa mídia. Depois desse filme, as novelas mudaram, os comerciais de TV mudaram, o rádio, os jornais... A linguagem audiovisual do brasileiro mudou! E o resto do mundo também teve que prestar atenção.
Cidade de Deus é cinema criativo, inteligente e artisticamente relevante. Em sua busca por autenticidade, Fernando Meirelles optou por utilizar um elenco composto principalmente por amadores, sem experiência diante das câmeras. Os atores foram garimpados por meio de longas oficinas de teatro, realizadas nas localidades onde o filme foi rodado. A estratégia deu certo e o resultado convenceu! Os jovens e crianças recrutados pelo... filme organizado – com perdão pelo trocadilho – foram responsáveis inclusive pela versão final dos diálogos. Nessa tarefa, o diretor contou com a colaboração de Kátia Lund, creditada como codiretora.
O filme participou da festa do Óscar depois de receber quatro indicações, nas categorias de melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia. Saiu sem estatuetas. Não fizeram falta!
Resenha crítica do filme Cidade de Deus
Data de produção: 2002
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Bráulio Mantovani
Elenco: Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino da Hora, Phellipe Haagensen, Douglas Silva, Jonathan Haagensen, Matheus Nachtergaele, Seu Jorge e Alice Braga
Ótimo comentário, vi agora outro filme, acrescentado de detalhes.
ResponderExcluirLegal, Marcelo!!!! Abração!
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