Florence: Quem é Essa Mulher?: filme sobre a pior cantora do mundo

Cena do filme Florence: Quem é Essa Mulher?
Florence: Quem é Essa Mulher?: filme dirigido por Stephen Frears, com roteiro de Nicholas Martin

SOBRA TALENTO, SENSIBILIDADE E PAIXÃO PELA MÚSICA

Quem é, afinal, a pior cantora do mundo? Jogada ao vento, essa pergunta por certo suscitará respostas desencontradas. Detratores de todos os gêneros musicais encontrarão candidatas à altura – ou à baixura – para descer o sarrafo. Preferências pessoais, inclinações políticas, fundamentos culturais... Todos lançarão mão de pretextos e justificativas para listar as desqualificações de cada aspirante ao título. No final, a grande vencedora – ou derrotada – do concurso ficará reduzida à sua desimportância. Por que – haja paciência! – alguém estaria interessado em apontar o dedo para a pior cantora, ao invés de enaltecer a melhor? Só mesmo por motivos... anedóticos!
        Quando decidi assistir a esse filme sobre “a pior cantora do mundo”, trouxe comigo essa penca de preocupações. Temia que o roteiro ficasse só nas piadas óbvias e insistisse apenas em tripudiar sobre a falta de talento da personagem. Mas não! Florence: Quem é Essa Mulher?, dirigido em 2016 por Stephen Frears, foi realizado com sensibilidade e talento. Apresenta personagens humanos, verdadeiros e repletos de conteúdo artístico e cultural. A atmosfera romântica, a ambientação aristocrática e o senso de ritmo impecável tornam o filme envolvente e ágil. A música, apesar de espancada pela total falta de noção da protagonista, é muito bem tratada, com o devido respeito e a necessária reverência.
        Para quem ainda não sabe quem é essa mulher, o filme nos dá um vislumbre dessa personagem real: Florence Foster Jenkins era uma socialite de Nova Iorque, apaixonada por música erudita e fundadora do The Verdi Club, onde promovia concertistas e orquestras. Intrometida no mundo da música, era mais admirada por seu mecenato do que pelo talento musical – possuía imensa cultura musical, mas não conseguia emitir uma única nota afinada. Os que a cercavam, interessados em sua enorme fortuna, faziam vistas grossas – ou ouvidos moucos – para deixar a infeliz na ilusão de que era capaz de cantar. No final da Segunda Guerra Mundial, estimulada pelos bajuladores, decidiu alugar nada menos que o Carnegie Hall, lotá-lo com soldados e marujos e soltar a voz num recital.
        Antes de entrar em detalhes, vamos examinar a sinopse: em 1944, a riquíssima Florence (Meryl Streep) padece de sífilis, mas não perde a atitude altiva e bem-humorada. Incentivada por seu dedicado companheiro St. Clair Bayfield (Hugh Grant), um ator shakespeariano britânico, ela decide retomar as aulas de canto. Contrata o pianista Cosmé McMoon (Simon Helberg), regiamente pago por St. Clair para tratar a desafinada Florence como uma diva. St. Clair também organiza um pequeno recital e compra toda a audiência para garantir os aplausos no final do espetáculo. A partir daí, as ambições musicais de Florence crescem em escala geométrica. Em pouco tempo ela estará diante de uma imensa plateia de soldados, em pleno Carnegie Hall. Ela só quer festejar e cultuar a música. Os que a cercam, só querem protege-la e mantê-la no seu mundo de ilusões. Já a plateia, dificilmente perdoará sua falta de musicalidade.
        Em Florence: Quem é Essa Mulher?, a pior cantora do mundo se revela em sua dimensão humana. Os realizadores tiveram o bom senso de deixar que apenas os rompantes de comicidade involuntária viessem nos arrancar algumas risadas. Ressaltaram o drama de uma mulher sensível com uma vida atribulada, que encontrou na arte da música um objeto de regozijo e no marido St. Clair Bayfield um apoiador afetuoso e respeitoso.
        Não se trata de um filme biográfico. Cobre apenas um recorte na vida de Florence. O conceito partiu do experiente roteirista Nicholas Martin, que tem passagens de sucesso pelas séries de TV. Ele conheceu a personagem por meio de um vídeo no YouTube e imediatamente decidiu escrever o seu primeiro longa-metragem para o cinema. Depois de pesquisar, percebeu que ao invés de uma comédia rasa, o filme seria sobre uma história de amor sincero. O escalado para dirigir Florence: Quem é Essa Mulher?, foi o tarimbado Stephen Frears, um diretor que já nos deu sucessos como Ligações Perigosas e A Rainha. Sob o seu comando o filme ganhou um ritmo envolvente e uma atmosfera de época, onde respiramos elegância, sofisticação e musicalidade.
        Essa mesma abordagem foi feita em 2015 no filme Marguerite, produção francesa dirigida por Xavier Giannoli e escrita por ele em parceria com a roteirista Marcia Romano. Também inspirada em Florence Foster Jenkins, a protagonista Marguerite é vivida por Catherine Frot e apresentada de modo menos caricato na Paris efervescente da década de 1920. É o charme do cinema europeu no esforço de fazer um contraponto à objetividade hollywoodiana.
        Em Florence: Quem é Essa Mulher?, as interpretações de Meryl Streep e Hugh Grant são memoráveis, mas é preciso lembrar também a ótima atuação de Simon Helberg. O filme mostra que não precisamos de voltas e reviravoltas para nos deixar envolver por uma boa história, desde que seus personagens sejam apresentados com sinceridade e se revelem sem ressalvas.

Resenha crítica do filme Florence: Quem é Essa Mulher?

Data de produção: 2016
Direção: Stephen Frears 
Roteiro: Nicholas Martin
Elenco: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Ferguson, Nina Arianda, Stanley Townsend, Allan Corduner, Christian McKay, David Haig, John Sessions, Bríd Brennan, John Kavanagh, Pat Starr, Maggie Steed, Thelma Barlow, Liza Ross, Paola Dionisotti, Rhoda Lewis, Aida Garifullina, Nat Luurtsema, Ewan Stewart, Mark Arnold, Tunji Kasim, Josh O'Connor e Alex Elson

Comentários

  1. Gostei muito desse filme. Florence encantou-me pela sua delicadeza. Fiquei impressionada como ela , apesar de não saber cantar, como ela entende o valor da "música".

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    1. Sim, também gostei muito disso no filme. Ele era dona de muita cultura musical e sensibilidade para apreciar as grandes criações. A dificuldade dela era justamente a de se ouvir!!!

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  2. Obrigado pela crônica. Esse filme merecia ter sido mais valorizado, especialmente por conta das interpretações e da direção de arte. Muito grato por lembrar dele. Adorei a crônica.

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    1. Agradeço a você, Jadilson! Também gostei muito desse filme! Abraços!

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