A Noite Americana: um filme sobre a paixão de fazer cinema
A Noite Americana: filme de François Truffaut
A Noite Americana narra a saga do cineasta Ferrand, álter ego do próprio Truffaut, que roda um filme intitulado “Je Vous Présente Pamela”, um drama como tantos outros gestados pela indústria do cinema e destinado ao circuito comercial. Os percalços e as complicações são incontáveis: atores em pé de guerra, casos amorosos que interferem no cronograma, financiadores que insistem em cobrar resultados, imprevistos na produção, explosões de egos, assédio da imprensa sensacionalista... A aventura de se meter a fazer um filme é retratada em seus detalhes mais curiosos. Vamos examinar a sinopse:
O filme rodado dentro do filme conta como um jovem francês e sua esposa inglesa chegam para visitar os pais dele. A jovem se apaixona pelo sogro e o triângulo que se forma rende incontáveis situações dramáticas. O ator neurótico Alphonse (Jean-Pierre Léaud) interpreta o filho, enquanto que a atriz britânica Julie Baker (Jacqueline Bisset), que se recupera de um colapso nervoso, interpreta a jovem Pamela. Os pais do jovem são interpretados por Alexandre (Jean-Pierre Aumont) e Séverine (Valentina Cortese), atores consagrados que carregam o peso de uma história pessoal entre eles. Quem luta para que tudo funcione dentro dos prazos e orçamentos é o diretor Ferrand (François Truffaut), com a ajuda de vários membros da equipe, como a assistente de direção Joëlle (Nathalie Baye), a maquiadora Odile (Nike Arrighi), o cenógrafo Bernard (Bernard Ménez) e o produtor Bertrand (Jean Champion).
Em A Noite Americana, Truffaut aproveita para homenagear o cinema, sem esconder a imensa paixão que nutre por ele. E nos dá uma verdadeira aula, não no sentido técnico – embora tenhamos a oportunidade de vislumbrar como os filmes são feitos – mas no sentido estético, para revelar as manobras criativas que moldam uma obra. Improvisos em cena, ajustes nos diálogos na hora de gravar, a luta para colocar os atores numa mesma visão artística... Não costumamos assistir a nenhum desses temas em um making of, ainda mais com a abordagem dramática de uma obra de ficção.
É claro que os cinéfilos mais entusiasmados se divertirão com os truques envolvidos na criação do ilusionismo que tanto nos diverte: uma luz elétrica disfarçada de vela para iluminar o rosto da atriz, os andaimes que sustentam uma janela para simular o quarto dos protagonistas, o trabalho minucioso dos dublês, a neve falsa, o planejamento detalhado para movimentar as câmeras pelos cenários... Os próprios membros da equipe são atores e alguns interpretam a si mesmos, como o assistente de direção Jean-François Stévenin e o fotógrafo Pierre Zucca, que fazem na frente das câmeras o que normalmente fazem por trás delas.
Truffaut, um cineasta profundamente ligado às bases teóricas do cinema europeu, oferece ao grande público uma visão clássica da sétima arte e da indústria do cinema. O próprio título do filme faz referência às antigas técnicas usadas por Hollywood para filmar cenas durante o dia, com o uso de filtros nas lentes, de modo a fazê-las parecer terem sido captadas à noite. Isso numa época em que a tecnologia das câmeras, das lentes e dos filmes impedia a realização de cenas externas durante a noite.
Depois de realizar A Noite Americana, o diretor foi acusado de fazer cinema superficial, sem a necessária abordagem política. Esse foi, inclusive, o motivo do rompimento da longa amizade que mantinha com o cineasta Jean-Luc Godard – o famoso esquerdista não se conformava com a oportunidade perdida. Achava que Truffaut devia ter feito uma crítica ácida da indústria cinematográfica e falado sobre suas desigualdades econômicas, saído em defesa dos... oprimidos, essas coisas!
O cinema de François Truffaut jamais foi superficial. O diretor, roteirista e ator dirigiu grandes sucessos de público e nos trouxe um olhar novo sobre temas ancestrais. Mas certamente não foi por isso que A Noite Americana venceu o Óscar de melhor filme estrangeiro em 1974. Foi por méritos estéticos e artísticos! É claro que a nouvelle vague não foi o único movimento a lidar com a obra dentro da obra. O teatro já experimentou isso muito antes e outros cineastas mexeram nesse vespeiro. Lembro de filmes que tratam do assunto por ângulos diferentes, como A Mulher do Tenente Francês, de 1981 dirigido por Karel Reisz e O Estado das Coisas, realizado em 1982 por Wim Wender, mas isso já é assunto para outras crônicas.
Direção: François Truffaut
Roteiro: Jean-Louis Richard, Suzanne Schiffman e François Truffaut
A AVENTURA DE RODAR UM FILME
Realizar um filme sobre o drama de realizar um filme é como sonhar que se está sonhando. Assistir ao filme A Noite Americana, realizado em 1973 por François Truffaut, é como passar quase duas horas a enxergar com os olhos do diretor. É como ter o prazer de ser aquela mosquinha que zanza despercebida por todos os cenários, enquanto testemunha segredos e fatos omitidos. Enfim, é um deleite para qualquer cinéfilo! Mas não se trata de mero exercício acadêmico de metalinguagem, ou de uma obra com caráter documental. É cinema em estado puro.A Noite Americana narra a saga do cineasta Ferrand, álter ego do próprio Truffaut, que roda um filme intitulado “Je Vous Présente Pamela”, um drama como tantos outros gestados pela indústria do cinema e destinado ao circuito comercial. Os percalços e as complicações são incontáveis: atores em pé de guerra, casos amorosos que interferem no cronograma, financiadores que insistem em cobrar resultados, imprevistos na produção, explosões de egos, assédio da imprensa sensacionalista... A aventura de se meter a fazer um filme é retratada em seus detalhes mais curiosos. Vamos examinar a sinopse:
O filme rodado dentro do filme conta como um jovem francês e sua esposa inglesa chegam para visitar os pais dele. A jovem se apaixona pelo sogro e o triângulo que se forma rende incontáveis situações dramáticas. O ator neurótico Alphonse (Jean-Pierre Léaud) interpreta o filho, enquanto que a atriz britânica Julie Baker (Jacqueline Bisset), que se recupera de um colapso nervoso, interpreta a jovem Pamela. Os pais do jovem são interpretados por Alexandre (Jean-Pierre Aumont) e Séverine (Valentina Cortese), atores consagrados que carregam o peso de uma história pessoal entre eles. Quem luta para que tudo funcione dentro dos prazos e orçamentos é o diretor Ferrand (François Truffaut), com a ajuda de vários membros da equipe, como a assistente de direção Joëlle (Nathalie Baye), a maquiadora Odile (Nike Arrighi), o cenógrafo Bernard (Bernard Ménez) e o produtor Bertrand (Jean Champion).
Em A Noite Americana, Truffaut aproveita para homenagear o cinema, sem esconder a imensa paixão que nutre por ele. E nos dá uma verdadeira aula, não no sentido técnico – embora tenhamos a oportunidade de vislumbrar como os filmes são feitos – mas no sentido estético, para revelar as manobras criativas que moldam uma obra. Improvisos em cena, ajustes nos diálogos na hora de gravar, a luta para colocar os atores numa mesma visão artística... Não costumamos assistir a nenhum desses temas em um making of, ainda mais com a abordagem dramática de uma obra de ficção.
É claro que os cinéfilos mais entusiasmados se divertirão com os truques envolvidos na criação do ilusionismo que tanto nos diverte: uma luz elétrica disfarçada de vela para iluminar o rosto da atriz, os andaimes que sustentam uma janela para simular o quarto dos protagonistas, o trabalho minucioso dos dublês, a neve falsa, o planejamento detalhado para movimentar as câmeras pelos cenários... Os próprios membros da equipe são atores e alguns interpretam a si mesmos, como o assistente de direção Jean-François Stévenin e o fotógrafo Pierre Zucca, que fazem na frente das câmeras o que normalmente fazem por trás delas.
Truffaut, um cineasta profundamente ligado às bases teóricas do cinema europeu, oferece ao grande público uma visão clássica da sétima arte e da indústria do cinema. O próprio título do filme faz referência às antigas técnicas usadas por Hollywood para filmar cenas durante o dia, com o uso de filtros nas lentes, de modo a fazê-las parecer terem sido captadas à noite. Isso numa época em que a tecnologia das câmeras, das lentes e dos filmes impedia a realização de cenas externas durante a noite.
Depois de realizar A Noite Americana, o diretor foi acusado de fazer cinema superficial, sem a necessária abordagem política. Esse foi, inclusive, o motivo do rompimento da longa amizade que mantinha com o cineasta Jean-Luc Godard – o famoso esquerdista não se conformava com a oportunidade perdida. Achava que Truffaut devia ter feito uma crítica ácida da indústria cinematográfica e falado sobre suas desigualdades econômicas, saído em defesa dos... oprimidos, essas coisas!
O cinema de François Truffaut jamais foi superficial. O diretor, roteirista e ator dirigiu grandes sucessos de público e nos trouxe um olhar novo sobre temas ancestrais. Mas certamente não foi por isso que A Noite Americana venceu o Óscar de melhor filme estrangeiro em 1974. Foi por méritos estéticos e artísticos! É claro que a nouvelle vague não foi o único movimento a lidar com a obra dentro da obra. O teatro já experimentou isso muito antes e outros cineastas mexeram nesse vespeiro. Lembro de filmes que tratam do assunto por ângulos diferentes, como A Mulher do Tenente Francês, de 1981 dirigido por Karel Reisz e O Estado das Coisas, realizado em 1982 por Wim Wender, mas isso já é assunto para outras crônicas.
Resenha crítica do filme A Noite Americana
Ano de produção: 1973Direção: François Truffaut
Roteiro: Jean-Louis Richard, Suzanne Schiffman e François Truffaut
Elenco: Jacqueline
Bisset, Valentina Cortese, Alexandra Stewart, Jean-Pierre Aumont, Jean Champion,
Jean-Pierre Léaud, François Truffaut, Nike Arrighi, Nathalie Baye, Maurice
Séveno, David Markham, Bernard Ménez, Gaston Joly, Zénaïde Rossi, Xavier
Saint-Macary, Dani, e Graham Greene
Excelente texto sobre um filme que amo .
ResponderExcluirMuito obrigado, Walter. Também gosto demais desse filme!
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