A Teoria de Tudo: Stephen Hawking, para além da ciência

Cena do filme A Teoria de Tudo
A Teoria de Tudo: filme dirigido por James Marsh

UM ROTEIRO BEM COSTURADO É TUDO!

De todos os candidatos a popstar, o mais improvável seria um físico acadêmico que ocupava ao mesmo tempo duas cadeiras: a de Isaac Newton, na Universidade de Cambridge e uma outra, de rodas, onde permanecia aprisionado por causa de uma terrível doença degenerativa, conhecida como esclerose lateral amiotrófica. Mas Stephen Hawking venceu todas as barreiras e se tornou uma celebridade reconhecida em todo canto do planeta. Autor de livros difíceis, por tratarem de assuntos pedregosos para os não iniciados, ainda assim conseguiu alcançar um estrondoso sucesso comercial.
        Uma cinebiografia sobre tal personagem, num primeiro momento, poderia parecer um tiro certeiro. A simples menção ao nome de Stephen Hawking seria um chamariz para o grande público, que invadiria as salas de exibição para conhecê-lo com mais profundidade e se emocionar com as circunstâncias espetaculares da vida que levou. Por sorte, os realizadores de A Teoria de Tudo, filme dirigido em 2014 por James Marsh, não ficaram presos às obviedades. Preferiram contar uma história densa, emocionante e difícil, onde o físico teórico divide o protagonismo com sua mulher, Jane Hawking.
        A Teoria de Tudo não é um filme sobre ciência, muito menos sobre os bastidores do mundo acadêmico. É sobre um relacionamento amoroso que se despedaça, apesar do enorme esforço dos protagonistas para mantê-lo íntegro. Seguidas tragédias o põem à prova: primeiro vem a tal doença impiedosa, depois o abismo intelectual que separa os amantes e finalmente a fama invasiva, que provoca frequentes tempestades emocionais. É difícil um casamento que resista a tudo isso!
        Portanto, o filme não é propriamente uma cinebiografia, mas uma adaptação do livro de memórias escrito por Jane Hawking, intitulado Travelling to Infinity: My Life with Stephen. A história, como não poderia deixar de ser, gira em torno do cientista que fez importantes descobertas a respeito dos buracos negros. Somos apresentados a Stephen Hawking (Eddie Redmayne) já nos tempos de estudante e acompanhamos sua trajetória acadêmica. Testemunhamos o começo do seu romance com Jane (Felicity Jones) e o progressivo flagelo da doença que debilitaria seu corpo – mas que incrivelmente nem chegaria perto da sua mente. Conhecemos seu carisma e o fino senso de humor que transformaram seu nome numa verdadeira grife de alcance mundial.
        O filme começou a nascer na mente do roteirista e produtor Anthony McCarten – experiente, ele já escreveu filmes como Dois Papas, Bohemian Rhapsody e O Destino de Uma Nação. McCarten levou oito anos para viabilizar financeiramente o projeto, enquanto isso, teve tempo de sobra para burilar o roteiro. Desde o início ele percebeu que o tema que daria coesão ao filme seria... o tempo! Não só o tempo que se configura como objeto de estudo do protagonista e que demanda algumas doses de ciência ao longo de inúmeras cenas expositivas, mas a simples passagem do tempo, que todos nós, reles mortais, percebemos escorrer pelos dedos enquanto afeta nossas vidas.
        Anthony MaCarten costurou seu roteiro a partir das várias reuniões que manteve com a própria Jane Hawking. Minucioso, ele buscou levantar os fatos e os detalhes, mas depois tentou torná-los mais interessantes. O resultado foi uma mistura de verossimilhança com licenças poéticas, que trouxe personalidade ao filme. Um dos truques narrativos utilizados pelo roteirista foi pontuar a história com trechos de filmes caseiros, que apresentam a intimidade dos protagonistas e a vida em família. Isso ressaltou a passagem do tempo e destacou a progressão implacável da doença, que nós, espectadores, sabemos muito bem aonde levará.
        Em A Teoria de Tudo nos deparamos com diversas alegorias visuais, criadas para tornar menos áridas as explicações que envolvem a física. Como resultado, temos um filme ágil, que flui com leveza, mas sem perder a capacidade de emocionar. Méritos do diretor James Marsh, que realizou um filme britânico por excelência, envolvente, elegante e comovente. Experiente na linguagem dos documentários – conquistou um Óscar com seu trabalho em O Equilibrista, sobre a travessia de Philippe Petit entre as torres gêmeas do World Trade Center – o diretor soube mostrar a verdade de cada um dos personagens.
        A competência do elenco também precisa ser destacada. Além de Eddie Redmayne, impecável no papel do físico – ele levou um merecido Óscar de melhor ator pelo papel – temos a atriz Felicity Jones, que dá um show de interpretação como Jane Hawking. Para finalizar, quero lembrar aqui a emocionante trilha sonora assinada por Jóhann Jóhannsson. Vale a pena conferir!

Resenha crítica do filme A Teoria de Tudo

Data de produção: 2014
Direção: James Marsh
Roteiro: Anthony McCarten
Elenco: Eddie Redmayne, Felicity Jones, Maxine Peake, Charlie Cox, Emily Watson, Guy Oliver-Watts, Simon McBurney, Abigail Cruttenden, Charlotte Hope, Lucy Chappell, David Thewlis, Enzo Cilenti, Georg Nikoloff, Alice Orr-Ewing e Harry Lloyd

Comentários

Confira também:

Tempestade Infinita: drama real de resiliência e superação

Menina de Ouro: a história de Maggie Fitzgerald é real?

Siga a Crônica de Cinema