Ray: narrativa afiada e talento legítimo, num dos melhores musicais já realizados

Ray: filme dirigido por Taylor Hackford
UM GÊNIO DA MÚSICA INTERPRETADO POR UM BOM MÚSICO
Ray Charles foi uma presença marcante na minha infância. Suas canções memoráveis estavam sempre rodando na vitrola. Hit the Road Jack, A Song for You, Georgia on My Mind... Meus tios eram fãs e cuidaram de me transmitir a empolgação que sentiam. Deixei-me contagiar pela musicalidade, já que não falava inglês e não alcançava o conteúdo das letras. Quando descobri que o sujeito era cego, não resisti: peguei o violão do meu tio, fechei os olhos e passei vários minutos tentando descobrir como era possível tocar sem olhar para o instrumento.– Ah, música é para os ouvidos! – concluí, enquanto tentava diferenciar as notas aleatórias que conseguia pinçar. Era só uma questão de treino! Era só desenvolver o sentido da audição.
O fato é que, se enxergasse, Ray Charles tocaria do mesmo jeito. Sua cegueira era irrelevante para os que amavam sua música. O mesmo deveria se dar com a cor da sua pele, mas acontece que não! O músico nasceu num país segregado, que fazia questão de manter duas culturas: uma branca e outra negra, convivendo em camadas feito água e óleo. Na medida em que evoluiu musicalmente, com talento, carisma e tino para os negócios, ele venceu a impermeabilidade e fez com que sua música fosse assimilada pela cultura branca. Tornou-se bem-sucedido, enriqueceu e ganhou fama mundial. Foi um dos grandes responsáveis pela miscigenação musical que a partir dos anos 50 tomou conta dos Estados Unidos e do planeta. Tal trajetória jamais poderia ser ignorada por alguém que se atravesse a contar sua história.
O grande atrevido foi Taylor Hackford, que já trazia no currículo filmes como Advogado do Diabo e Prova de Vida. Em 2004 ele escreveu, produziu e dirigiu o filme Ray, onde dramatiza a vida e a carreira de Ray Charles com notável sensibilidade artística e competência técnica. Poucos artistas no mundo da música ganharam uma cinebiografia tão bela e bem realizada. Os méritos, em primeiro lugar, são do próprio diretor, que lutou durante 15 anos para conseguir financiamento para o seu projeto, já que todos os estúdios se recusaram a fazê-lo. A ideia parecia mais talhada para a televisão e a indústria achava difícil fazê-lo chegar às telas dos cinemas.
Taylor Hackford apostou numa narrativa fortemente ancorada em ganchos emocionais e alcançou não apenas os fãs de Ray Charles, mas também o público em geral, que desconhece alguns detalhes surpreendentes sobre a vida do artista. O diretor desenvolveu a estrutura narrativa e mesclou espetáculo musical com dramatizações. Foi assim que encontrou o melhor conceito para contar sua história. Depois disso, envolveu Jimmy White para escrever o roteiro a ser filmado. O que acompanhamos em Ray são dramas vividos por personagens bem construídos, mais comumente encontrados nas obras de ficção.
Ray cobre toda a vida de Ray Charles, desde sua infância numa comunidade pobre no norte da Flórida até o topo da sua carreira de artista consagrado. Descobrimos como ele ficou cego aos sete anos, como se envolveu como músico encarando a poeira das estradas, como encontrou a sua personalidade musical, construiu sua família, subiu todos os degraus até o estrelato e despencou, vitimado pelo uso de drogas.
Mas ao escrever sobre o filme Ray, julgo imprescindível dedicar demorados aplausos a Jamie Foxx. Além de ator carismático, fisicamente parecido com o personagem que interpreta, ele é um exímio pianista e executou ele mesmo todas as canções durante as gravações. O ator começou a tocar piano aos três anos e chegou à faculdade com uma bolsa de estudos para o instrumento. Nas telas, encarnou Ray Charles com impressionante verossimilhança. Foi assim que ganhou o Óscar de melhor ator em 2005 – e o filme também saiu com a estatueta de melhor mixagem de som.
Finalmente, é preciso mencionar os méritos do próprio Ray Charles, um grande artista que viveu uma vida atribulada. Ele apoiou Taylor Hackford em suas decisões criativas e se manteve firme nas convicções artísticas que queria ver estampadas num longa-metragem sobre a sua vida. Quando chegamos aos créditos finais de Ray, só pensamos em continuar ouvindo os sucessos que ele nos deixou. Então, aos poucos, vamos nos dando conta de que assistimos a um dos melhores filmes do gênero musical. Uma produção independente de qualidade, que merece ser revisitada periodicamente.
Resenha crítica do filme Ray
Direção: Taylor Hackford
Roteiro: Taylor Hackford e James L. White
Elenco: Jamie Foxx, Kerry Washington, Regina King, Clifton Powell e C.J. Sanders
O filme já assisti, e assistiria novamente! O que resta a elogiar é a crônica bem elaborada! Parabéns!
ResponderExcluirAh, muito obrigado!!! Valeu!
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