A Esposa: filme que quase deu o Oscar a Glenn Close

A Esposa: filme dirigido por Björn Runge
ATORES QUE DIZEM MUITO, APENAS COM O OLHAR
Joe Castleman está a caminho de Estocolmo, onde vai receber o prêmio Nobel de Literatura, mas é um sujeito medíocre, como marido, como pai e como... escritor! Joan Castlemam, sua mulher que o acompanha por toda a vida, é o verdadeiro gênio literário do casal. É ela quem deveria ser laureada! No filme A Esposa, de 2017, o diretor sueco Björn Runge arranca ótimas atuações de Glenn Close e Jonathan Pryce, para nos contar como eles construíram uma vida inteira de mentiras.O filme é baseado no livro A Esposa, da romancista americana Meg Wolitzer, que narra o drama de Joan Castleman, uma mulher obediente e cumpridora do seu papel de apoiar o marido. Porém, ela arde por dentro em ressentimento e frustração. Sente que se anulou como indivíduo ao longo dos 40 anos de casamento. Seu marido, Joe Castleman, está no auge da carreira. Acostumado a ser o centro das atenções, vive ocupado demais em polir o próprio ego e não percebe que a panela de pressão do seu casamento está prestes a explodir.
Meg Wolitzer escreveu seu romance como uma obra de ficção, mas construiu a protagonista inspirada em sua mãe, que também é romancista e sentiu na pele o ardido preconceito sexista. No entanto, A Esposa não é exatamente um libelo feminista, ou uma obra para confrontar o machismo. Ainda que a narrativa em primeira pessoa ressalte a raiva e os ressentimentos da protagonista, a autora faz um exame da vida conjugal, seus conflitos, suas relações de interdependência e o desequilíbrio de poder que fatalmente se estabelece.
A adaptação para as telas é assinada pela experiente Jane Anderson, que já escreveu algumas minisséries premiadas, como Olive Kitteridge, Mad Men e Normal. Em A Esposa ela apresenta ótimas soluções narrativas, com idas e vindas em flashbacks bem articulados, para nos revelar aos poucos a índole dos personagens. Seu maior esforço foi para criar um retrato mais nítido e verdadeiro de Joe Castelman (Jonathan Pryce), ao eliminar a narrativa em primeira pessoa feita pela esposa. Joe precisava estabelecer mais empatia com o espectador e não poderia ser retratado como um mero narcisista inepto. Esse processo de humanização demandou vários rascunhos do roteiro.
Jane Anderson também precisou encontrar soluções narrativas para estabelecer o ponto de vista da protagonista, que não poderia ser retratada apenas como uma vítima. Ao deixar o marido, Joan Castleman (Glenn Close) teve que crescer como personagem, o que exigiu vários ajustes no filme em relação ao romance original. Nesse processo, a roteirista acrescentou diversos elementos à história, para deixar os conflitos mais claros para o espectador. Entretanto, de modo geral, conseguiu manter o espírito do romance.
Partir do livro e chegar ao filme realizado foi uma longa jornada, que consumiu catorze anos, dadas as dificuldades para conseguir financiamento. Esse dado, porém, pode não interessar ao cinéfilo ávido por acompanhar uma boa história bem contada. Num primeiro momento podemos até pensar que Glenn Close, com sua excelente atuação, carrega o filme nas costas. Não há como negar que a atriz brilha fulgurante em cena e nos surpreende ao revelar várias camadas psicológicas da sua personagem, apenas com o olhar – muito bem fotografada por sinal, de acordo com a tradição do cinema sueco que tem Ingmar Bergman como referencial. E quanto a Jonathan Pryce, ele esbanja competência! Annie Starke e Harry Lloyd, que interpretam os Castleman enquanto jovens, também se saem bem. Ajudam a manter a qualidade do filme.
Mas, se olharmos bem, vamos reparar que há outro elemento essencial que precisa ser destacado: a direção segura de Björn Runge. O diretor sueco, que fez aqui sua estreia em um longa-metragem em inglês, trouxe um respeitável currículo de produções no teatro e na TV em seu país. Ele soube filmar de modo a resgatar o porte e a elegância do cinema clássico. E o mais importante: apesar da visibilidade que o roteiro dá a Joe, ele entendeu que suas lentes deveriam estar focadas principalmente em Joan e sua jornada.
Em resumo, A Esposa é um filme bem realizado, com personagens cheios de segredos e que pagam um alto preço por suas escolhas ao longo da vida. Vale a pena conferir!
Resenha crítica do filme A Esposa
Data de produção: 2017
Direção: Björn Runge
Roteiro: Jane Anderson
Direção: Björn Runge
Roteiro: Jane Anderson
Elenco: Glenn Close, Jonathan Pryce, Annie Starke, Harry Lloyd, Christian Slater, Nathaniel Bone, Max Irons, Elizabeth McGovern e Alix Wilton Regan
Assistir e gostei crônica sempre bem redigida.
ResponderExcluirLegal!!! Muito obrigado pelo feedback!
ExcluirAdorei seu comentário. Esclarece muita coisa que fica nas entrelinhas.
ResponderExcluirObrigado!
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