Gladiador: imprecisões históricas e muita dramatização

Cena do filme GladiadorGladiador: filme dirigido por Ridley Scott
UMA HISTÓRIA PARA DEIXAR A HISTÓRIA MAIS PALATÁVEL
Os anglo-saxões sabem muito bem a diferença entre “history” e “story”. Já nós, falantes do português, que seguimos a norma culta, usamos somente uma palavra: história, que se refere tanto a uma peça de ficção quanto à compilação científica dos fatos históricos. Alguns torcem o nariz para tal regra. Acreditam que ela gera confusão. Outros, niilistas, preferem atropelar a própria norma culta. 
        Infelizmente, o aparato educacional do estado brasileiro decidiu reduzir a norma culta a um reles compêndio da linguagem técnica da academia e do jornalismo. Tecnocratas, afinal, lidam melhor com o idioma quando o contém dentro de limites burocráticos, pragmáticos e utilitaristas. Para os estudantes que estão chegando agora, a tal norma culta não é mais do que uma formalidade incômoda, a ser abandonada assim que se alcança a média na prova de português. Coitados! Além de herdar uma língua mais empobrecida, nem sequer precisam se preocupar com o seu uso formal.  
        A linguagem literária, pinçada das entranhas da nossa melhor literatura, sempre serviu de base para expressar o idioma que cultivamos – falo do cultivo que mora dentro da palavra cultura! Pensada, depurada e forjada com esmero por escritores talentosos e inspirados, é a linguagem literária que municia as pessoas mais cultas, enquanto fazem uso do idioma para alcançar precisão e aperfeiçoar sua expressividade emocional e – por que não? – artística.
        Quando usa a palavra “estória” para se referir a uma criação literária, o falante coloquial assume que há o uso de artifícios narrativos na sua construção. Parece querer insinuar que a “história” não é resultado das mesmas artimanhas, mas sim de elaborações científicas. Bobagem! É tudo resultado das mesmas regras e padrões linguísticos. É tudo narrativa! Aquelas elaboradas com respeito à norma culta sempre serão mais precisas, densas e confiáveis.
        Resolvi iniciar minha crônica falando da confusão em torno da palavra história porque o filme Gladiador, dirigido em 2000 por Ridley Scott, lida com as duas acepções. Personagens fictícios e situações inventadas convivem com acontecimentos reais e vultos históricos, para criar um caldo denso de divertimento e distração. O objetivo é entreter com uma história emocionante e envolvente, contada com a mesma solenidade dedicada aos episódios cruciais da história! Muitos cinéfilos gritaram:
        – Espere aí! Faltou compromisso com a realidade!
        O fato é que, quando se trata de fatos históricos, a realidade nem sempre é favorável ao espetáculo. O cinema precisa lançar mão de certas licenças poéticas. Nos anos 60 e 70 os filmes de gladiadores sensacionalistas eram parte de um filão bastante explorado pela indústria do cinema, que produziu incontáveis filmes B, depois exibidos na TV. É claro que tivemos a felicidade de assistir a grandes clássicos do gênero, como Ben-Hur, de Willian Wyler e Spartacus, de Stanley Kubrick. Ambos serviram de modelo para este Gladiador de 2000.
        O filme de Ridley Scott nos traz de volta ao ano 180 d.C, quando Maximus (Russel Crowe), o general da Espanha, conduz o exército do imperador Marco Aurélio (Richard Harris) a mais uma vitória. O imperador tem Maximus como um filho e deseja fazê-lo seu sucessor, mas Cómodo (Joaquin Phoenix), esse sim o filho legítimo, não permite que isso aconteça. Mata o pai, assume o poder e ordena a execução do general, junto com sua mulher e filho. Maximus sobrevive e termina como escravo, comprado por Proximus (Oliver Reed) para integrar suas fileiras de gladiadores. Depois de encantar as plateias das arenas do império com sua coragem, força e ferocidade, o outrora general da Espanha agora vai lutar no Coliseu, mas tem um único objetivo: encontrar o Cómodo e matá-lo, para vingar a morte da família, que espera reencontrar na vida pós-túmulo.
        Ridley Scott planejava apresentar em Gladiador um panorama crível e realista da cultura romana na antiguidade, com uma imponência que jamais havia sido produzida pelo cinema. Contratou vários historiadores como consultores, mas logo esbarrou em problemas estruturais. Ele conta que antes de aceitar a direção do filme, os executivos do estúdio mostraram a ele um famoso quadro de Jean-Léon Gérôme, retratando um gladiador vitorioso num Coliseu majestoso. Foi quando teve o estalo criativo que definiu o conceito do filme. Só depois de aceitar o projeto é que foi ler o roteiro escrito por David Franzoni.
        Conforme o projeto foi se desenvolvendo, ficou claro a necessidade de alterações na trama. Russel Crowe, o ator com quem Ridley Scott mantinha uma ótima parceira criativa, considerou o roteiro muito ruim e fez várias interferências nas linhas de diálogo. Os roteiristas John Logan e Willian Nicholson assumiram a reescrita do roteiro, que foi feita na medida em que o filme era produzido. Pesquisaram bastante, mas também se deliciaram com as licenças poéticas que puderam inventar, para deixar o filme mais palatável ao público. Ainda assim, Gladiador está repleto de personagens amargos, vingativos e ferozes. A magia digital trouxe uma atmosfera realista, mas sonegou aquela sensação de violência extrema, que encontrávamos nas cenas dos filmes antigos, feitas na raça por dublês destemidos.
        Depois de tanta luta, Gladiador se tornou um sucesso retumbante. Levou cinco Óscares: melhor filme, melhor ator para Russel Crowe, melhor figurino, melhores efeitos visuais e melhor som. Quanto ao público, adorou a história, mas as pessoas saíram das salas de exibição dispostas a desvendar os acertos, os erros, os exageros e as imprecisões históricas cometidas em nome do bom entretenimento. Pelo menos todos concordaram num ponto: o Coliseu e a própria Roma nunca ficaram tão imponentes no cinema!

Resenha crítica do filme Gladiador

Data de produção: 2000
Direção: Ridley Scott
Roteiro: David Franzoni, John Logan e William Nicholson
Elenco: Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Derek Jacobi, Djimon Hounsou, David Schofield, John Shrapnel, Tomas Arana, Ralf Möeller, Spencer Treat Clark, David Hemmings e Tommy Flanagan

Comentários

  1. Sua digressão sobre história e estória me trouxe a lembrança de alguns bons 30 anos quando esse binômio era muito usado nos meios culturais. Depois sumiu. Mas isso é outra “estória “ Quanto à sua abordagem sobre o filme, como sempre didática e perfeita!

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