À Procura da Felicidade: história real vivida por Chris Gardner

Cena do filme À Procura da Felicidade
À Procura da Felicidade: filme de Gabrielle Muccino

O TRIUNFO DO INDIVÍDUO SOBRE AS FORÇAS QUE TENTAM ARRASTÁ-LO PARA O REBANHO

Se acompanhássemos o título original em inglês deste filme, penso que em português ele deveria se chamar À Procura da Filicidade – escrito com “i” ao invés de “e”. É assim mesmo, com a grafia errada, que Chris Gardner encontra a palavra desenhada numa das paredes da escola do filho, quando vai buscá-lo depois de um dia difícil. Quando percebe a palavra “happiness” grafada com “y”, o protagonista se dá conta de que é o desleixo com o que é correto, por menor que seja, que leva à corrosão dos valores mais caros ao ser humano. Então ele segue na retidão! Come o pão que o diabo amassou, mas insiste no único bem que possui: a capacidade de lutar honestamente enquanto tiver forças.
        À Procura da Felicidade, dirigido em 2006 pelo italiano Gabriele Muccino, é um filme agarrado aos valores conservadores e não abre espaço para o relativismo moral. Defende que há verdades universais e mostra que o certo e o errado são conceitos objetivos – não podem variar de pessoa para pessoa ao seu bel prazer, conforme seus interesses particulares ou suas predisposições culturais. Por trás da aparente displicência com o idioma, o que se esconde é a senha para a desconstrução dos valores morais e éticos absolutos que dão fundamentação à nossa vida em sociedade. Se tudo é certo e nada está errado, não há como cobrar um padrão de comportamento das pessoas, nem há como resolver divergências pelo diálogo. É a barbárie!
        Os cinéfilos desatentos talvez fiquem surpresos com a ênfase que dou nesta crônica a um reles erro de ortografia, mas percebam que ele foi ressaltado logo no título do filme. Isso é importante, pois cria um incômodo ruído justamente no princípio da procura da felicidade, que virou emblema dos defensores do utilitarismo. Esta corrente filosófica prega que o foco das ações do estado deve estar no prazer material proporcionado ao maior número de cidadãos possível. Uma aberração coletivista, que despreza a essência do indivíduo e suas particularidades. Grafado com erro, é como se esse princípio tão caro aos progressistas de plantão terminasse... relativizado. É uma ironia!
        A história que acompanhamos em À Procura da Felicidade é real. Foi vivida pelo americano Chris Gardner, empreendedor e corretor da bolsa de valores. Palestrante inspirador e bem-sucedido, hoje ele ensina como superar obstáculos e vencer o medo do fracasso. Mas antes de olhar o mundo lá do topo, ele chegou ao fundo poço! Vendedor talentoso e hábil com números, investiu tudo o que tinha numa falsa oportunidade. Perdeu tudo! Ficou sem fonte de renda e sem lugar para morar. Perambulou com o filho em estado de indigência. O filme mostra como se deu a superação de Chris Gardner, e revela que ela só aconteceu depois de muito sofrimento! Vejamos a sinopse:
        Chris (Will Smith) se afunda num poço de problemas financeiros quando fica sem dinheiro para pagar as contas e garantir o sustento da família. Sua mulher, Linda (Thandiwe Newton), não aguenta o rojão. Parte e deixa Christopher (Jaden Smith), o filho de cinco anos, por conta dele. Sem chão, o protagonista vai em busca de um emprego, mas tudo o que consegue é um estágio não remunerado e uma promessa de contratação, caso seja o vencedor entre todos os estagiários concorrentes. Quando a notificação de despejo chega, ele vira morador de rua e passa a sobreviver com o filho graças à caridade dos outros.
        O roteiro de À Procura da Felicidade, escrito por Steven Conrad, é uma adaptação do livro homônimo de Chris Gardner e Quincy Troupe. Consegue a façanha de sintetizar uma história densa e emocionante, sem cair na pieguice. Conrad – que depois escreveria também o roteiro do filme Extraordinário – conta que manteve muitas conversas com Chris Gardner e se identificou com sua história, pois também já se viu à beira da falência. No seu roteiro, focalizou o drama de um pai que tenta educar o filho pelo exemplo e transmitir a confiança necessária à sua formação. Também enfatizou a urgência e a correria de quem tenta não cair no buraco trágico da bancarrota, imprimindo um ritmo ágil à narrativa.
        Uma boa sacada do roteirista foi incluir na história um elemento que não constava no livro, mas simbolizou a enorme pressão e o fardo que o mundo coloca nas costas do personagem. Sua ideia foi fazê-lo carregar para todos os lugares um pesado scanner de densidade óssea que tentaria vender para médicos e clínicas.
        Quanto ao diretor Italiano Gabriele Muccino, é preciso dizer que ele soube resistir à tentação e não colocou sentimentalismo em demasia no seu filme. Preferiu deixar que Will Smith e seu filho Jaden exibissem sua ótima química em cena, protagonizando cenas de cortar o coração. Vê-los encontrar o equilíbrio no final do filme é tudo o que desejamos, mas antes, os dois terão que lutar contra as forças que desprezam seus valores como indivíduos e teimam em arrastá-los para o meio do rebanho.

Resenha crítica do filme À Procura da Felicidade

Data de produção: 2006
Título original: The Pursuit of Happyness
Título em Portugal:  Em Busca da Felicidade
Direção: Gabriele Muccino
Roteiro: Steven Conrad
Elenco: Will Smith, Jaden Smith, Thandie Newton, James Finnerty, James Karen, Kurt Fuller, Mark Christopher Lawrence, Peter Fitzsimmons, Scott Klace
Brian Howe e Dan Castellaneta

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