Tempo de Matar: uma história onde o racismo interfere nos julgamentos

Cena do filme Tempo de Matar
Tempo de Matar: filme de Joel Schumacher

PRECONCEITO RACIAL, DILEMAS MORAIS E LABIRINTOS JURÍDICOS 

O escritor John Grisham ficou famoso por seus romances de tribunal. Já vendeu mais de 300 milhões de exemplares ao redor do mundo e se tornou o número um no segmento dos thrillers de tribunal. Nove dos seus romances foram adaptados para o cinema, mas o primeiro que escreveu – em 1989, apenas três anos depois de se formar advogado – foi Tempo de Matar, que chegou às telas em 1996, dirigido por Joel Schumacher.
        Grisham já havia visto outros três dos seus romances virarem filme: A Firma, O Dossiê Pelicano e O Cliente. Desta vez, porém, tentou manter o controle criativo sobre sua obra e decidiu interferir mais diretamente na adaptação. Envolveu-se como produtor, convocou Joel Schumacher para a direção e tratou de impor a concepção audiovisual do filme, que havia imaginado quando concebeu a trama.
        Tempo de Matar traz uma história bem costurada. Jake Tyler Brigance (Matthew McConaughey) é um advogado que trabalha no estado do Mississipi, onde os paradoxos legais e a índole racista formam uma mistura explosiva. Ele é contratado por Carl Lee Hailey (Samuel L. Jackson) para defendê-lo da acusação de duplo assassinato, cuja condenação inevitável lhe custará a pena de morte. A questão polêmica é que o crime de Carl Lee foi cometido sob pressões emocionais: as duas vítimas, homens brancos, abjetos, bêbados e racistas, foram os estupradores desumanos que fizeram barbaridades com sua filha e deixaram na pobre as marcas indeléveis da violência. Sim, foi vingança! Mas quando atirou nos cretinos, na saída do tribunal – os dois haviam sido presos, mas foram condenados a penas irrisórias – Carl Lee acertou também o policial que os conduzia e o deixou deficiente.
        A situação não está nada boa para Carl Lee, mas para o advogado Brigance os problemas mal começaram. Terá que enfrentar a fúria da opinião pública dividida, as ameaças da Ku-klux-klan, as agressões e violências contra ele e as pessoas que o cercam e as interferência de um sistema jurídico com várias cartas marcadas. Contará com a ajuda da estudante de direito Ellen Roark (Sandra Bullock), mas terá que enfrentar a sagacidade do promotor Rufus Buckley (Kevin Spacey).
        As interferências de Grisham preservaram a força da sua história, mas resultaram numa adaptação protocolar. O diretor Joel Schumacher parece abrir mão dos seus ímpetos criativos para conduzir um filme dentro de limites seguros, quase televisivos. Contratou o roteirista Akiva Goldsman, que conseguiu extrair os elementos de tensão e emoção contidos na história e costurou um roteiro descomplicado. Isso deu aos atores a oportunidade assumir a inteira responsabilidade pela condução dramática. Há quem acuse Akiva Goldsman de ser um roteirista displicente, mas em Tempo de Matar o seu estilo desleixado funcionou bem: entregou para a audiência exatamente o que ela esperava.
        Resumindo: Tempo de Matar é sobre o julgamento de um negro que matou os brancos violentadores da sua filhinha, 
por um tribunal racista do Mississipi. Sabemos por quem torcer e conhecemos as implicações legais que estão em jogo, afinal, não se pode abrir precedentes para os que fazem justiça com as próprias mãos. Entretanto, enquanto não conhecemos o final dessa história, acompanhamos com a máxima atenção todas as maquinações da acusação e subterfúgios da defesa, ávidos por descobrir qual das partes encontrará o atalho escondido no labirinto jurídico.
        Apesar de transitar pelos clichês do gênero, Joel Schumacher o fez com um ritmo ágil. E tira atuações memoráveis do grande elenco. Samuel L. Jackson é o grande destaque, pois acerta na composição de um personagem complexo, ora matreiro, ora passional. Matthew McConaughey mostrou que dá conta de papéis sérios e convenceu ao trazer uma postura descolada para o seu advogado. E a presença de Sandra Bullock acrescentou charme e um certo toque de ingenuidade, que faz bem ao filme. Vale a pena conferir!

Resenha crítica do filme Tempo de Matar

Data de produção: 1996
Direção: Joel Schumacher
Roteiro: Akiva Goldsman
Elenco: Samuel L. Jackson, Matthew McConaughey, Sandra Bullock, Kevin Spacey, Oliver Platt, Charles S. Dutton, Brenda Fricker, Donald Sutherland, Kiefer Sutherland, Patrick McGoohan, Ashley Judd, Tonea Stewart, Rae'Ven Larrymore Kelly, Darrin Mitchell e LaConte McGrew

Comentários

  1. Aguçou meu interesse. Vou conferir…

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    1. Ah, Julio, essa e uma ótima opção. É um filme com uma história muito envolvente.

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