300: dos quadrinhos para as telas

300: direção de Zack Snyder
COMBATEREMOS À SOMBRA!
A Batalha de Termópilas aconteceu há 2.500 anos. Todos já aprendemos sobre ela nos bancos escolares: durante três dias, 300 espartanos liderados pelo Rei Leônidas encurralaram 300 mil persas numa passagem estreita e resistiram até a morte para defender os valores que ergueram a civilização ocidental. Os gregos já empreendiam a busca racional pela verdade e entendiam que ela é tarefa de cada indivíduo. Já os persas, estavam mais preocupados em expandir seu império exuberante e multicultural, mas controlado por um poder central onipresente.Aqueles espartanos corajosos, unidos pelo ideal de liberdade e independência, viraram símbolo de heroísmo. Além de inspirar as demais cidades-estados gregas a seguir na resistência aos invasores adeptos da servidão coletiva, protagonizaram um episódio incrível, que nos instiga até hoje. Quem se encantou com essa história desde garoto foi o escritor e desenhista Frank Miller, um dos principais nomes dos quadrinhos. Em 1998, depois de consagrado pelo sucesso do seu Batman: O Cavaleiro das Trevas, ele lançou a graphic novel intitulada 300 e trouxe de volta o espírito severo dos guerreiros espartanos.
Com seus desenhos em alto contraste e sua linguagem marcada por uma dramaticidade sombria, Miller preencheu 130 páginas com fúria, violência e uma eloquência gráfica notável. Fugiu do formato padrão e se aproximou da proporção cinematográfica, para oferecer ao leitor uma experiência mais intensa. Suas cenas de batalha mostram a máquina espartana em ação, onde cada guerreiro é parte de um todo coeso, focado na vitória. Também se sobressai a voz narrativa que o artista adotou em seu texto: está tudo na primeira pessoa do plural, afinal, os espartanos em batalha – os maiores guerreiros que o mundo já viu – pensavam como um ser único!
A excelência gráfica de 300 também é resultado do trabalho elegante da ilustradora Lynn Varley, então mulher de Miller e sua colaboradora de longa data. Considerada uma das maiores coloristas dos quadrinhos, ela empregou uma palheta sofisticada, que adicionou sutilezas aos desenhos e acrescentou uma nova camada narrativa para a história. Como resultado, podemos desfrutar agora de uma obra marcada por idiossincrasias, tanto no visual como no texto, que se mostraram apropriadas na hora de contar essa história memorável, que já está mais para o mito do que para os fatos.
Uma adaptação para o cinema só poderia seguir na mesma trilha! 300, dirigido em 2007 por Zack Snyder, é uma alegoria ficcional da Batalha de Termópilas e não se prende aos preciosismos históricos. O diretor, que depois desse longa consolidou sua carreira no segmento dos filmes de super-heróis, percebeu a oportunidade de transpor para a tela aquela linguagem estilizada, mas com o acréscimo de outros elementos narrativos, como música, design de som, mise em scène, ritmo, cortes, transições, encenação, interpretações, enquadramentos, planos... Ah, e muita computação gráfica! Na tela, o Rei Leônidas e os trezentos guerreiros da sua guarda pessoal ganharam novas dimensões dramáticas. Vejamos uma rápida sinopse:
300 é narrado por Dilios (David Wenham), um guerreiro espartano que segue Leônidas (Gerard Butler), o Rei de Esparta, na derradeira batalha contra Xerxes I (Rodrigo Santoro), o Rei da Pérsia autointitulado como divindade. Enquanto os 300 heróis enfrentam os 300 mil homens do exército invasor, a Rainha Gorgo (Lena Headey) se mete em uma batalha contra políticos corruptos. Tenta conseguir apoio militar para Leônidas e assim poupá-lo do sacrifício heroico. Outros chegam para lutar ao lado dos 300, mas nenhum armado com o mesmo espírito de determinação e invencibilidade dos espartanos. Quanto aos Persas, não se importarão em mandar seus soldados em fila para o abatedouro, enquanto tentam contornar o gargalo onde acabaram entupidos.
O diretor Zack Snyder não hesitou em usar cada plano desenhado por Frank Miller. Seguiu rigorosamente a sua concepção gráfica. Chegou a um resultado que lembra em parte àquele apresentado por Akira Kurosawa em Ran, porém com uma estética moldada pela tecnologia digital. Seu filme é belo e envolvente, ainda que profuso em sangue e violência. A direção de arte supervisionada por Isabelle Guay e a edição assinada por William Hoy são partes integrantes do conjunto e contribuíram para a experiência final do espectador.
O roteiro assinado por Zack Snyder, Kurt Johnstad e Michael B. Gordon é preciso e... espartano! Manteve Dilios como narrador, mas expandiu algumas subtramas, para revelar outras camadas do protagonista. A Rainha Gorgo, que nos quadrinhos aparecia apenas no início, veio para mostrar que as espartanas não ficavam para trás em bravura e austeridade – tinham os ventres para gerar guerreiros invencíveis! Outros personagens foram acrescentados, como Plistarco, filho de Leônidas e o político corrupto Theron.
Ao se propor como espetáculo operístico, 300 flertou com a fantasia. Não se importou com a precisão histórica. Usou as cenas de batalha como alegoria para retratar a alma de personagens arquetípicos, tendo como pano de fundo um verdadeiro choque de civilizações – aquele crucial para a formação do mundo como o conhecemos hoje. Aliás, as analogias com a política contemporânea deram a tônica entre os críticos e detratores: acusações de excessos de americanismo, masculinidade e depreciação dos persas e seus sucedâneos do Irã... Os que atacam a civilização ocidental e seus pilares, estrilaram. Pois que fiquem em casa e assistam a algum documentário que lhes seja mais favorável!
Frank Miller não largou as rédeas de 300. Atuou como produtor executivo e consultor do filme. Sua ex-mulher, Lynn Varley, também produziu vários fundos e cenários. E não pararam por aí: uma sequência, intitulada 300: A Ascensão do Império foi realizada em 2014 e seguiu a mesma trilha. Mas isso já é outra história!
Resenha crítica do filme 300
Ano de produção: 2007Direção: Zack Snyder
Roteiro: Zack Snyder, Kurt Johnstad e Michael B. Gordon
Elenco: Gerard Butler, Rodrigo Santoro, David Wenham, Lena Headey, Giovani Cimmino, Dominic West, Vincent Regan, Tom Wisdom, Andrew Pleavin, Stephen McHattie, Michael Fassbender, Peter Mensah, Kelly Craig, Robert Maillet, e Patrick Sabongui
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