O Leopardo: minissérie épica em seis episódios

Cena da minissérie O Leopardo
O Leopardo: direção de Tom Shankland

DRAMATURGIA ITALIANA COM TEMPERO BRITÂNICO

O escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa escreveu O Leopardo, mas não viveu para testemunhar seu incrível sucesso editorial. Publicado postumamente em 1958, depois de recusado por vários editores, o romance histórico alcançou um lugar de destaque na literatura do seu país – muitos agora se referem a ele como o Guerra e Paz da Itália! O autor se inspirou na história dos seus antepassados e desenrolou uma trama épica, repleta de intrigas, romances e disputas pelo poder.
        O Leopardo é um livro conciso, com apenas 384 páginas. Mas quanta literatura! As entrelinhas vêm abarrotadas de referências e imagens tão ricas que se desdobram em acontecimentos na mente do leitor. Começa em 1860, em pleno declínio dos Bourbon, quando os Camisas Vermelhas de Garibaldi invadem a Sicília para anexá-la à Itália, nos momentos cruciais do Risorgimento, o movimento que unificou os vários pequenos estados que deram forma à nação italiana. O romance é sobre Fabrizio Corbera, o Príncipe de Salina conhecido como Leopardo, que luta com todas as armas para preservar o poder e as tradições da sua família aristocrática, uma das mais ricas e poderosas da ilha.
        O romance foi adaptado para o cinema em 1963, sob a direção do lendário Luchino Visconti. Seu filme O Leopardo ainda hoje é um clássico irretocável, estrelado por Burt Lancaster, Claudia Cardinale e Alain Delon. Ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e também a admiração do público europeu, mas recebeu um tratamento desleixado nos Estados Unidos e na Inglaterra – dublagens em inglês malfeitas e cópias baratas sem a imponência das cores originais afastaram o público.
        Eis que em 2025, O Leopardo ressurge imponente no serviço de streaming, adaptado para uma minissérie em seis episódios produzida pela Netflix. O cinéfilo ansioso por acompanhar uma envolvente história épica, já pode apertar o play sem medo e se deliciar com uma produção irretocável e deslumbrante. Entretanto, é bom que fique avisado: apesar de inteiramente falada em italiano, com atores e equipe técnica italianos, o filme é uma produção britânica. E este é um dado relevante!
        Já nos acostumamos com as frequentes adaptações britânicas dos grandes clássicos da literatura mundial, escritos por Jane Austen, Willian Shakespeare, Fiódor Dostoiévski e outros tantos. Por lá eles estão sempre remexendo o caldo cultural para nos brindar com releituras instigantes. Já os italianos são menos prolíficos nesse campo, por isso é animador ver o padrão britânico de qualidade aplicado a esta produção.
        A liderança criativa ficou por conta do diretor Tom Shankland e do roteirista Richard Warlow. Experientes, ambos já trabalharam em inúmeras séries de sucesso, como The Serpent, Ripper Street, Les Misérables e SAS Rogue Heroes. Quando o projeto de adaptar O Leopardo foi encampado pela Netflix, os produtores estavam inclinados a filmar em inglês, mas mudaram de ideia quando perceberam a oportunidade de privilegiar a autenticidade. Mas antes de seguir em frente, vejamos uma sinopse da minissérie:
        Em O Leopardo, Fabrizio Corbera (Kim Rossi Stuart) é o Príncipe de Salina, que representa a velha ordem e luta para preservar suas tradições familiares e seu poder na Sicília. Seu sobrinho, Tancredi Falconeri (Saul Nanni) é o jovem que representa a Itália moderna e luta para vê-la triunfar. Ele se envolve com a filha mais velha do príncipe, Concetta (Benedetta Porcaroli), que arde em paixão, mas o amor entre os dois não decola, diante da efervescência política que interfere nos interesses da família. Para complicar, terão que enfrentar as ambições de Calogero Sedàra (Francesco Colella), um prefeito corrupto que representa o protótipo da máfia e tenta agarrar seu naco de poder enquanto trabalha para derrubar o antigo regime da Sicília. Nessa empreitada ele conta com o poder de sedução de sua bela filha, Angelica (Deva Cassel).
        Os roteiros de O Leopardo foram escritos em inglês por Richard Worlow – à exceção dos episódios quatro e cinco, escritos por Benji Walters. Em seguida, os textos foram vertidos para o italiano, traduzidos pelo especialista Luca Briasco. No processo, os roteiristas não levaram o filme de Luchino Visconti em consideração. Preferiram mergulhar no livro e extrair de lá todo o conteúdo para sustentar os seis episódios da minissérie. Richard Worlow ampliou a presença de vários personagens, especialmente a da filha do príncipe, Concetta. Também tratou de dar um sentido de urgência e perigo a todas as ações dos personagens, para impor um ritmo narrativo mais ágil palatável para o público atual – o filme de Visconti é bem mais arrastado!
        O diretor Tom Shankland, que fala italiano e se sentiu à vontade para interagir com o elenco e com toda a equipe técnica, impôs um ritmo mais moderno para a minissérie, mas sem deixar de capturar o tom épico da narrativa. Seus enquadramentos clássicos exibem o luxo e a suntuosidade sem exageros, para ressaltar a cultura e a poesia que habitam nos subtextos do romance. A direção de fotografia, assinada pelo dinamarquês Nicolaj Bruel, aproveita toda a exuberância das locações em Palermo, Siracusa e Catânia, para capturar a magia da luz siciliana. O que vemos na tela são imagens verdadeiramente cinematográficas, em tom clássico, mas também moderno.
        Filmada em palácios magníficos, com objetos de cena riquíssimos e figurinos deslumbrantes, a minissérie O Leopardo mostra o estilo de vida opulento da nobreza siciliana, mas sem abandonar o realismo. Os realizadores também abriram espaço para a simplicidade da vida rústica, para a agitação política e para o calor das batalhas militares. Tudo embalado por uma trilha sonora moderna e pulsante, assinada por Paolo Buonovino e salpicada de grandes clássicos da música erudita italiana.
        O Leopardo traz a dramaticidade e a densidade de um dos maiores clássicos da literatura italiana, combinados com a excelência da narrativa audiovisual dos britânicos. Um pacote imperdível para os cinéfilos ávidos pode cinema de qualidade.

Resenha crítica da minissérie O Leopardo

Título original: Il Gattopardo
Ano de produção: 2025
Episódios: 6
Direção: Tom Shankland
Roteiro: Richard Worlow e Benji Walters
Elenco: Kim Rossi Stuart, Benedetta Porcaroli, Saul Nanni, Paolo Calabresi, Astrid Meloni, Greta Esposito, Dalila Ricotta, Ruben Mulet Porena, Mario Patanè, Giuseppe Palazzolo, Deva Cassel, Francesco Colella, Marcus Marcelli, Gaetano Bruno, Francesco Di Leva, Alberto Rossi, Jozef Gjura e Roberta Procida

Comentários

  1. Assistindo e amando! O protagonista arrasa.

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    1. Sim, o elenco todo, aliás, entrega ótimas atuações.

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  2. Impecável sua form de apresentar a série, texto muito bem escrito , com detalhes que despertam a curiosidade de qualquer um. Obrigada por seu bele trabalho!!

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    1. Ah, muito obrigado. Seu feedback é um estímulo para seguir escrevendo. Valeu!

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