Reagan: uma cinebiografia bem realizada

Cena do filme Reagan
Reagan: filme de Sean McNamara

A LUTA SEM TRÉGUAS CONTRA O COMUNISMO

Bem, caro leitor, devo começar esta crônica com um alerta: Reagan, dirigido em 2024 por Sean McNamara, é o pior filme de 2024. Na opinião da imprensa que cobre a cena de Hollywood, bem entendido! Segundo os sites agregadores de resenhas, 82% dos críticos odiaram o filme. Já o público, gostou! 98% dos que assistiram dão notas altas e o recomendam. Este cronista está com o público. Assisti dia desses e adorei!
        É claro que Reagan fala mais diretamente aos admiradores do 40º presidente dos Estados Unidos e aos que defendem sua cruzada contra o comunismo. Junto com Margareth Thatcher e o Papa João Paulo II, ele compôs o triunvirato que derreteu a cortina de ferro e pôs fim ao pesadelo da Guerra Fria. Já os progressistas de plantão, talvez prefiram assistir às produções mais alinhadas aos seus apetites ideológicos – Marighellas, Bacurais e outros tais... É do jogo!
        Enquanto outros presidentes americanos já foram vistos nas telas de Hollywood, a cinebiografia de Ronald Reagan demorou décadas para ser realizada. Mas valeu a pena esperar. Reagan é um filme bem realizado, com um roteiro envolvente e atuações marcantes. Foi solenemente desprezado pela academia do Óscar, não conseguiu espaço de divulgação nos veículos da imprensa e ganhou o desprezo da crítica, mas agora está disponível nos serviços de streaming e pode ser conferido pelos cinéfilos que gostam de tirar as próprias conclusões. Antes de entrar nos detalhes, vamos ver a sua sinopse:
        Reagan vai direto ao ponto: começa com uma recriação do atentado a tiros que Ronald Reagan (Dennis Quaid) sofreu em 1981. Levado para o hospital com uma bala alojada a dois centímetros do coração, põe os Estados Unidos congelados de tanta expectativa. Quando entram os créditos iniciais, sobrepostos a uma colagem de imagens, vídeos, filmes e matérias da imprensa, fica claro qual será a temática do filme: a luta sem tréguas contra o comunismo. Então, há um corte para os dias atuais. Entra em cena o agente fictício da KGB, Viktor Nivikov (Jon Voight), que assume o papel de narrador do filme. Ele revela a um jovem entusiasta do comunismo quais foram as razões para a derrocada da União Soviética: a culpa foi daquele presidente americano agarrado a valores tão... conservadores!
        É pelas palavras do espião russo que passamos a acompanhar a vida de Ronald Reagan, desde a sua infância interiorana, agarrada aos valores cristãos. Seus tempos na faculdade, seus anos como salva-vidas, seu ingresso na carreira de ator, sua atuação como sindicalista, seu casamento com a atriz Nancy Davis (Penelope Ann Miller), o ingresso na política ancorado na sua determinação em derrotar os comunistas, sua eleição como governador da Califórnia... De repente, ele ocupa a Casa Branca e é baleado! Então, na outra metade do filme, vamos acompanhar o atribulado relacionamento entre Reagan e o presidente Gorbachev (Aleksander Krupa), junto com todos os episódios que marcaram os rumos da história moderna e culminaram com a queda do muro de Berlim.
        Quem viveu aquele período conturbado vai se lembrar de vários detalhes: a corrida armamentista, o programa Guerra nas Estrelas, o avião da Korean Airlines abatido pelos soviéticos, o caso Irã-Contras... Entre erros e acertos de Ronald Reagan, vários episódios são apresentados com agilidade – e com a superficialidade que se espera de uma dramatização com 141 minutos de duração. Mas é bom lembrar que se trata de uma cinebiografia para festejar o legado de um presidente polêmico e popular. É baseada no livro The Crusader: Ronald Reagan e a Queda do Comunismo, escrito em 2006 pelo professor de ciência política Paul Kengor. Resultado de pesquisas minuciosas, o livro acompanha a trajetória de Reagan desde seus tempos de governador até a queda do muro de Berlim e o colapso do tal Império do Mal.
        O produtor Mark Joseph, do MJM Entertainment Group – especializado em filmes com temática cristã – leu o livro e assumiu o projeto de adaptá-lo para as telas em 2010. O roteiro ficou a cargo do experiente Howard Klausner, que já escreveu filmes como Caubóis do Espaço. O roteirista passou anos imerso no mundo de Ronald Reagan e costurou a narrativa do filme a partir do personagem do espião soviético – um compilado de vários espiões e analistas que produziram relatórios para o Kremlin sobre os rumos da política nos Estados Unidos.
        O diretor Sean McNamara ingressou no projeto em 2016, disposto a revelar o lado humano e a vida pessoal do ícone político com quem resvalou na juventude – o diretor trabalhou na cerimônia de posse de Reagan em 1981, contratado como assistente de som responsável por operar os microfones. Seu filme, no entanto, não desce às profundidades psicológicas, mas permanece da superfície do homem público, cuja vida foi esquadrinhada por toda a mídia, tanto a facção detratora como a apoiadora.
        As filmagens começaram em 2020, mas foram interrompidas por causa da pandemia de COVID-19. Antes de retomá-las os realizadores precisaram resolver problemas de financiamento, até fechar o orçamento da produção. O resultado final, que agora podemos acompanhar nos serviços de streaming, atendeu as expectativas do público. McNamara acertou no ritmo e na agilidade. Usou a trilha sonora como ponto de contato com o espectador, para resgatar elementos de afetividade ao longo das décadas que se sucedem na tela. Valorizou a linguagem visual, já que o texto precisou estar comprometido mais com o conteúdo expositivo do que com a profundidade emocional. Ainda assim, conseguiu encenar boas dramatizações. Seu filme, apesar de previsível, consegue a proeza de conduzir o interesse do espectador até o final.
        Mas o grande destaque de Reagan vai mesmo para Dennis Quaid e Penelope Ann Miller, que entregam atuações bastante sólidas. Os trejeitos e maneirismos do casal Reagan são representados com perfeição, ainda que as encenações fiquem ao nível do que costumamos ver nas produções para a TV, o que não é propriamente um demérito, já que Ronald e Nancy Reagan eram isso mesmo: um casal midiático.
        Quando chegam os créditos finais, ficamos com aquela sensação boa de ter visto a vitória dos mocinhos, enquanto os bandidos levam a pior. Mas ficamos com uma incômoda preocupação: o tal ex-agente da KGB entrega todo o serviço para jovem comunista, que agora parece entender onde foi que os soviéticos erraram e vai trabalhar para mudar o jogo. Então lembramos que Ronald Reagan não está mais disponível para articular em favor do mundo livre. Lembramos que a ameaça comunista continua viva e perigosa. Não podemos dormir no ponto!

Resenha crítica do filme Reagan

Ano de produção: 2024
Direção: Sean McNamara
Roteiro: Howard Klausner
Elenco: Dennis Quaid, Tommy Ragen, David Henrie, Penelope Ann Miller, Jon Voight, Mena Suvari, Kevin Dillon, Mark Moses, Trevor Donovan, Olek Krupa, Alex Sparrow, Robert Davi, Amanda Righetti, Jennifer O'Neill, Justin Chatwin, Dan Lauria, Lesley-Anne Down, Will Wallace, Xander Berkeley, C. Thomas Howell, Derek Richardson, Elya Baskin, Kevin Sorbo, Nick Searcy, Pat Boone, Darryl Cox, Darci Lynne Farmer, Stephen Guarino, Sean Hankinson, Eloisa Huggins, James Austin Kerr, Hideo Kimura, Jordan Matlock, Moriah Peters, Skip Schwink, Scott Stapp, Ryan Whitney e Chris Massoglia

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